Dia Nacional de Doação de Órgãos: um gesto pode melhorar ou até salvar a vida de 351 pessoas no DF


Elaine teve complicações no coração devido à Doença de Chagas e conseguiu o transplante. Foto: Arquivo Pessoal
      O Dia Nacional de Doação de Órgãos, lembrado hoje, representa esperança para 351 moradores do DF. Desses pacientes na lista de espera, quatro são crianças. A fila aumentou em torno de 45% do ano passado para 2017, com 111 pessoas a mais. Quatro morreram neste ano antes de conseguir um transplante.
       A data serve para conscientizar a população de que o gesto pode salvar milhares de vidas. No Distrito Federal, 684 transplantes foram realizados no ano passado, seja de córnea, rim, fígado, coração ou pulmão. De janeiro a junho deste ano, 112 vidas foram poupadas.
      Segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de órgãos, 247 dos 348 adultos na lista de espera aguardam um rim, assim como uma das crianças. Os demais menores precisam de córnea.
      Janaína Trindade Cozac, 36 anos, é uma das pessoas que precisam de um rim. Ela descobriu que tinha lúpus aos 17 anos e desde então sabia que poderia desenvolver uma doença renal crônica. Aos 24, recebeu a notícia de que seus rins tinham perdido as funções. “Então, há 11 anos e meio faço hemodiálise, de segunda a sexta”, conta.
       Na época, ela tinha pensado em entrar na fila, mas um prognóstico a assustou. “A médica que me acompanhava no Hospital de Base me colocou medo, disse que eu ia ter diabetes, pressão alta, falou mais um monte de coisa e no fim eu desisti”, relembra.
       Passados cinco anos, ela foi incluída na relação, mas descobriu a gravidez do filho e teve que sair. “Aí, assim que ele nasceu, eu entrei para a fila efetivamente”, explica.
      Hoje, quase cinco anos depois, ela acompanha a fila pelo Registro Geral da Central de Transplantes. Da última vez que olhou, estava na posição 17. “Mas não é só por posição.        É por questão de compatibilidade, de urgência. Se fosse por posição eu já teria sido chamada”, conta. O irmão de Janaína é quem será seu doador, mas ela enfrenta dificuldades na compatibilidade em alguns exames.
       “No começo das hemodiálises eu tive anemia, o que é normal, mas ninguém me orientou e eu fiz muita transfusão de sangue. Isso encheu anticorpos, e então, se meu irmão me doar, o meu corpo rejeita na hora”, lamenta. Para tratar a questão, ela depende de um remédio que custa R$ 900 cada frasco. “O SUS não dá o medicamento e meu convênio não liberou”, critica.
      Apesar do impasse, Janaína avalia que, se não tivesse o irmão para doar o rim, seria angustiante esperar alguém morrer para ela poder viver. “A gente não torce por isso. As pessoas não têm a consciência de que doar salva vidas. A família acredita que pode acontecer um milagre e não autoriza a doação, mesmo com a morte cerebral constatada”, aponta.
Coração trouxe vida nova
       A aposentada Elaine Cristina Gomes, 40 anos, comemora hoje um ano e 11 meses de uma nova vida. No dia 27 de outubro de 2015, ela recebeu um coração que proporcionou uma qualidade de vida melhor. “Eu só fiquei sabendo que o órgão era de um rapaz do interior do Paraná, e que ele tinha 26 anos”, conta. Elaine foi diagnóstica aos 27 anos com a Doença de Chagas, conhecida por fazer o coração inchar.
      De 2004 até a data do transplante, ela passou por altos e baixos e até precisou colocar marcapasso. A recomendação para entrar na fila veio em agosto de 2015, por conta de crises de insuficiência cardíaca. “Eu fiquei muito fraca. Comecei a passar mal, com enjoo, falta de apetite. Perdi 17 quilos, porque o coração fazia com que eu não tivesse apetite para não gastar energia com a digestão”, conta. No dia 20 de outubro, a aposentada deu entrada no Instituto do Coração por conta das crises e no dia 27 conseguiu a doação.
      Agora, ela comemora a nova vida. “Hoje eu posso dizer que vivo uma vida saudável, eu tenho uma qualidade de vida boa, pratico atividades físicas. Tenho algumas restrições, mas para não me impedir de sair ando com minhas marmitas de comida, com a minha própria água”, afirma.
Sem medo de doar
     Quem está na fila ou quem já conseguiu um transplante são unânimes: as pessoas não podem ter medo de ser um doador. Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, o Distrito Federal tem 137 potenciais doadores, sendo que 44 são efetivos e 38 já tiverem alguns dos órgãos transplantados.
      A aposentada Elaine alega que, após sua doença, toda a família se declarou como doadora de órgãos. “E eu sei que eles conseguem tocar outras pessoas quando contam a minha história, quando falam da importância da doação. E assim vai indo. É fazer o bem sem olhar a quem”, resume.
Ponto de vista
     A doação de órgão mais esperada no Distrito Federal é por um rim. De acordo com a nefrologista Isabela Novais, a alta se dá por conta da prevalência da doença renal crônica. “Ela só aumenta no mundo. São cerca de 500 a 800 pessoas por milhão. Além disso, o número pela espera é alto porque temos a diálise, que supre a função dos rins. Nos outros órgãos, a prevalência das doenças é menor e os órgãos falecem”, aponta.
    O transplante de rim é uma medida alternativa às diálises. “É uma terapia renal substitutiva. De uma forma geral, comparado à hemodiálise, ele gera uma sobrevida maior ao paciente. E melhora a qualidade de vida, porque o paciente fica independente da terapia”, afirma a nefrologista.
SERVIÇO
Quem pode doar
  • Há duas formas de realizar as doações de órgãos e tecidos: em vida, que geralmente é um parente que doa, e quando o doador morre. “Nesses casos, só pode fazer a doação dos órgãos quando é constatada a morte encefálica, aí os médicos pedem a autorização da família. No Brasil, não é aceita a doação quando há parada cardíaca”, explica a médica Isabela Novais.
  • Para ser doador não é necessário deixar nada por escrito, mas é fundamental comunicar à sua família o desejo da doação, já que são os familiares que darão a autorização.
  • Já no caso da doação em vida, basta ter condições de saúde de modo que não venha a desenvolver nenhuma doença antes, durante ou depois da doação. Os vivos podem doar: rins, medula óssea, fígado, pulmão e pâncreas.
  • fonte: Jornal de Brasilia

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